- Vocês tem que parar de assistir cinema francês. A Luciana me disse ontem, e tem alguma razão.
Nós dois sentados na sala vazia, olhando a janela, que era um quadro vivo tão lindo que parecia inventado. Natureza morta mais viva que nós. Luz invadindo a sala fechada onde o ar condicionado terminava de esfriar os nossos sonhos mais pulsantes. Só tinha as costas da cadeira entre nós, um centímetro de uma madeira barata nos separando, e parecia três mundos.
Somos personagens de Godard baby - eu, você e o silêncio - e só agora percebo a estupidez que é um dia ter querido isso. A Luciana vai gravar um curta com essa cena. Será que ela vai conseguir mostrar na tela a agonia que foi viver-la? O contra-luz, o contraste entre a beleza gritante das árvores e nossa face triste, a minha vontade de ler teus pensamentos e o medo de que lesses os meus. Gritávamos e não nos ouvíamos. Maquiagem preta borrando minha face inteira, mas você não via.
A vida é a constante morte das coisas - eu penso no meio de um grito asfixiado, de um soluço, de um suspiro - não quero que mais nada nasça. O que você me diria se tivesse coragem de ter dito? Me pergunto se só eu que sinto que nosso longa tá chegando ao fim.
Queria ainda poder dividir um cigarro contigo.


Eu aceito você, junto com o pacote. Eu sei que com você pode vir discordância, distância, medo, saudade, angustia preocupação e ciúmes excessivos. Com brigas, feridas abertas, coração fechado ou frieza, mas eu sei e aceito porque eu também tenho meu pacote aqui do meu lado e sei também que você aceita cada defeito e cada coisa que precisa ser mudada em mim.
E claro que consigo, vêm à maioria das coisas boas que um ser humano pode ter e é por essas coisas que eu me dedico tanto a não te deixar ir e em hipótese alguma me deixo correr o risco de te perder. Promessa.
Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.



